quarta-feira, abril 20, 2016

Margarida e as nossas chaves

 
Tenho a chave de casa da Margarida assim como ela tem a minha. Coisa de amigas de longa data. Não vá uma de nós esquecer ou perder a sua, aparecer para dar de comer ao gato, regar as plantas, arejar caso alguma parta de férias... enfim, o costume.

E ainda bem que tenho sempre a chave dela na carteira. Hoje, toquei à campainha e ela não abriu. Voltei a tocar. Nada. Achei estranho, porque ela nunca costuma sair de manhã.

Já tinha apanhado uma molha para chegar até cá e não me apetecia voltar de novo para a rua naquele estado. Uma constipação, na minha idade, Pode ser perigoso. uma pessoa constipa-se, piora, vai às urgências do hospital e ainda volta de lá como uma bactéria qualquer que nos leva desta para melhor. Não! Ainda há um bom pedaço de vida para viver!

Tirei a chave da mala e entrei. Procurei-a no quarto, na sala,na marquise até, e não estava. Passei pela cozinha e deparei com uma prateleira nova pintada de branco e enfeitada com rosas. Sobre a mesma, uma colecção de latinhas de chá e, pendurados, um paninho florido, duas frigideiras por estrear em azul e rosa e um lindíssimo coração com um pássaro. A cara da Margarida! Nunca deixará de ser uma romântica!

 Como sabem, conheço-a há tantos anos já e ela continua a surpreender-me. Tem jeito para tudo enquanto eu passo os dias a ler, a escrever, a deixar que o pó me permita desenhar em cima da mesa da sala. O lar da Margarida é uma casinha de bonecas e a minha casa é um velho museu de família, cheio de recordações e completamente invadido por papel sob todas as suas formas: fotos, livros, revistas, cadernos, dossiers... Bem gostaria de ser como a minha amiga com um sítio para cada coisa e cada coisa no seu sítio, mas é mais forte do que eu. Aposto que sou uma alegria para os ácaros!

Voltando ao assunto que aqui me trouxe: a Margarida não se encontrava em casa esta manhã! Fiquei preocupada e liguei-lhe. Não atendeu. Ainda com a gabardina ensopada pela chuva, pus a chaleira ao lume e fui buscar uma daquelas chávenas inglesas para preparar um chá de maçã e canela. De seguida, peguei na caixinha dos biscoitos e já me preparava para um segundo pequeno-almoço, quando a porta da rua se abriu.

- Olá, menina! Como é que adivinhaste que me estava mesmo a apetecer um chazinho?
- Porque sabia que estavas a precisar de companhia. Então foste sair com este tempo?
- Fui à tua casa para te levar uns biscoitos que fiz ontem. Como não estavas, abri a porta e deixei-tos em cima da mesa da cozinha. Ainda bem que tenho a tua chave!
- E não atendeste o telefone porquê?
-Calculei que estivesses aqui e apeteceu-me surpreender-te.

A minha Margarida é assim! Amizade repleta de amor!

C.S.

quinta-feira, março 05, 2015

Nostalgia


Ao que tu chegaste, Margarida! Olhas-te no espelho e não te reconheces. Nos sulcos do teu rosto, pequenos riachos de águas salinas escorrem até às margens dos lábios ressequidos. É tão pouco aquilo que te faz sorrir! Talvez um pedaço de céu azul, um raio de Sol, os gritos das crianças que te chegam do jardim público.

Estás só, Margarida.Só numa casa que se foi esvaziando aos poucos.Cresceram uns e sairam. Partiram outros para um lugar melhor. E os que ficaram, Margarida... os que ficaram mergulham num silêncio que tu não entendes.

Ao que tu chegaste, Margarida! Lembras-te dos dias em que te nasciam marés vivas no olhar, tantas ondas de paixão e vastas planícies feitas de sonhos e de heras, de cavalos correndo livres na pradaria?

Assim foste, Margarida! Assim te conheci, mulher viva e inteira, árvore e seiva, potra e planície, terra e flor, estrela e brilho!

Vim hoje visitar-te e encontrei-te triste. Tão triste como as aves às quais cortaram as asas, os cães acorrentados a uma argola de ferro, as ruínas de uma casa que se cobriu de musgo.

-Em que estás a pensar, amiga?
- Nostalgia, Margarida. Quero-te de novo a sorrir. Só tu podes mudar o teu mundo e tenho a certeza de que és capaz de dar forma aos teus sonhos!

Sorriste um pouco, menina dos meus olhos. Talvez amanhã, ao voltar, te tenham crescido novas penas nas asas. Talvez amanhã recomeces a voar!

sexta-feira, abril 13, 2012

Papel amarelecido


Há anos que não visitava a Margarida. Como o tempo passa! Passa e passa e  nós, correndo por entre os dias, as semanas, os meses e os anos, esquecemo-nos até de nós próprias. Somos mulheres, mães, filhas,  tias, primas... Somos mulheres ocupadas, requisitadas, obrigadas a calar a voz que nos chama, que nos pede para sonhar e escrever.Tal como a Margarida, acabo por não ver o escorrer dos dias por entre os dedos embora sinta o tempo nas articulações, nas falanges doridas, na pele mais frouxa.E depois... depois há sempre um espelho que reflete um rosto cada vez mais cansado, cada vez mais magro, cada vez mais afastado da imagem que a memória ainda teima em reter.
Há muito tempo já, que não visitava a Margarida. No entanto, hoje, li um poema em que a revi e tomei a decisão de aqui voltar. Há poemas assim. Tal como há cartas, mensagens, romances, filmes e tantos outros sítios onde as palavras se mostram e revelam apontando caminhos para a Alma, para o Sonho, para a nostalgia do Passado ou uma saudade do Futuro. Já nem sei!
Vim vê-la e senti-a cansada. Não. Não fiquei desiludida nem triste, mas apenas constatei que a Margarida perdeu o aroma e a esperança da Primavera. Estava calada e quieta no cadeirão da sala, olhando tristemente para um pedaço de papel amarelecido pelo tempo. Não me atrevi a perguntar a razão da sua quietude, da sua infinita melancolia. Só sei que pairava no ar um cheiro a mel e a canela e que todo o ambiente estava envolto numa suave melancolia.
É possível que a Margarida estivesse a ler algo que escreveu há muitos anos. Talvez uma carta que nunca tivesse cumprido o seu destino. Palavras que ficaram por dizer ganhando a patine que só o Tempo e a Dor sabem oferecer. É possível...
Não a quis incomodar com perguntas . Sei bem como ela odeia ser interrompida quando viaja em silêncio no mundo dos sonhos. E também sei dos sonhos da Margarida. Sei daqueles mundos misteriosos que ela inventa, lugares únicos em que é verdadeiramente feliz ou desesperadamente infeliz.
A Margarida tinha entre as mãos um papel amarelecido.Uma carta, um poema, um recado de outrora.Nem reparou em mim e eu escolhi sair de mansinho.
Não escolhi um bom dia para conversarmos e no entanto teria tanto para lhe dizer.Mas se calhar as palavras ditas não possuem o peso das palavras escritas. Se calhar o silêncio é o melhor caminho para o coração daqueles que se estimam.
Voltarei amanhã, para a semana talvez. E não, não vou chorar.A Margarida é a menina dos meus olhos e não quero alagá-la com os meus próprios problemas.


domingo, outubro 04, 2009

Margarida e o Outono

De novo o Outono. Em breve o Inverno. E este calor desmentindo todas as estações. Tempo insistente como Marte em Carneiro, que teima em não deixar chegar a chuva.

- Quando o tempo mudar, disse-me a Margarida, hei-de estrear as minhas botas de montar e sairei a galope pelos prados de ouro!Sei de um local onde a Terra guarda tesouros, mas fica longe, tão longe...!

Margarida de olhos imensos e sonhos ainda maiores do que as órbitas olha para Espanha. De lá não lhe chegaram nem bons ventos nem bons casamentos, mas antes uma onda de fogo que a vai matando aos poucos.

- Sabes, quando o tempo mudar, eu hei-de curar as feridas______________... Poderei respirar. Quando o tempo mudar, a terra rodar e o Outono chegar.

quinta-feira, setembro 10, 2009


Estava capaz de pegar na velha mala verde com rodinhas e de nela enfiar, sem pensar demasiado, uma meia dúzia de mudas de roupa, uns livros, não muitos, e o essencial para os devidos cuidados de higiene e limpeza. E ainda um perfume. O "Intense" do Hugo Boss, um dos meus favoritos, por ser doce, por ser intenso. Mulher que se preze não sai à rua sem perfume .



Pois estava capaz de ir rever Florença. Sim, Florença, porque não? Sempre sonhei poder um dia lá voltar. Esta frase cheira-me a frase feita, mas é o que se pode arranjar. Nunca prometi ser muito original. Desengane-se quem visita o blog da Margarida em busca de intelectualidades. A Margarida é simples, como a flor que lhe deu o nome.


No entanto, não estou aqui para falar da Margarida. Está de férias e não a vou perturbar. É por ela estar de férias que eu achei que podia sair daqui. Também sou filha de Deus, ora essa!

Mas desta vez, não iria a Florença numa viagem organizada pela agência A, B ou C. Os guias são maçadores, são demasiado organizados para fazer juz às suas agências e não nos deixam ver aquilo que verdadeiramente queremos ver. Pegam no chapéu de chuva vermelho, levantam-no no ar ar qual estandarte e gritam o tempo todo : "Follow me! Follow me! E depois passam a vida a contar-nos, não vá algum perder-se, como se fossemos meninos do jardim infantil em passeio ao Zoo ,no dia mundial da criança.

Não. Desta vez, nada de viagens organizadas. Poderia apetecer-me ficar horas na Piazza a dar milho aos pombos. Também poderia apetecer-me adormecer junto à estátua de David, sonhar com o Leonardo Da Vinci, rezar um Pai-Nosso pela Alma do Miguel Angelo, reler o Príncipe do Maquiavel... São estas coisas que os guias sempre nos impedem de fazer.

Estou seriamente capaz de ligar à Margarida e de lhe dizer:

- Olha, se eu não estiver em casa quando regressares não te alarmes. Parti para Florença. Arriverderti! Ciao!

Será que em Florença vendem milho para dar aos pombos? Hum...

terça-feira, agosto 04, 2009


Margarida e o romance inacabado
Conheço a Margarida melhor do que ninguém. Muito melhor do que qualquer outra amiga, melhor do que a sua família, melhor até, estou segura, do que a própria mãe dela. A Margarida é a menina dos meus olhos e eu sei de toda a sua luz e de todas as suas sombras. Não, não estou a exagerar nem a armar-me em convencida.
Há amigas que julgam conhecê-la apenas porque ela lhes faz confidências de vez em quando. Desenganem-se. A Margarida não conta os seus segredos às outras amigas. Pelo menos os segredos-segredos, aqueles que são mesmo secretos. O que ela confidencia às amigas, são pequenos desabafos, pequenos aborrecimentos, pequenas dificuldades. A Margarida é um livro aberto, dizem elas, conta-nos a sua vida toda.
Mentira. Puro engano. O que ela diz a uma é o que diz a todas, é o que toda a  gente sabe ou adivinharia ainda que ela não contasse palavra. Um segredo que toda agente conhece é um não-segredo. Segredo verdadeiro é o silêncio, a não-palavra. Segredo é aquilo que alguém não diz e que outro adivinha, é o que é hermético, oculto, velado. O que a Margarida conta às amigas são histórias.
Já eu, eu leio na Margarida. Decifro a linguagem das suas águas claras, a severidade das suas águas escuras e profundas, a alegria do seu riso, a angústia da sua alma em chamas. Para mim, a Margarida é um romance inacabado, mas adivinho sempre o destino que ela vai dando aos personagens da sua vida, o próximo twist que ocorrerá nas suas acções, a forma como dará início ao capítulo seguinte. Adivinho porque sim, porque sei da Margarida como sei do meu próprio ser. Basta-me olhá-la nos olhos, ela que é a menina dos meus olhos, como já vos disse tantas vezes.
As outras, as amigas, pensam que sabem muito, que sabem tudo, mas sabem apenas das aparências ou não sabem nada de nada. Sabem de histórias da Margarida.
Mas não pensem que vou aproveitar para aqui fazer revelações acerca da Margarida. Ela nunca me perdoaria e eu própria seria incapaz de a trair. É o nosso pacto, o nosso acordo, feito de gestos desenhados no silêncio, de muitos momentos a sós com nós próprias, de uma extrema confiança.
- O que é que pr´aí a escrevinhar?, pergunta-me a Margarida.
- Nada de especial... apenas um segredo meu.

domingo, agosto 02, 2009

domingo, maio 10, 2009


Margarida e as mudanças

A Margarida gosta de mudanças. Quando não pode mudar de casa, muda as coisas que tem em casa. Sim. A Margarida acredita que as coisas podem ter muitas vidas. Coisas como paredes,tecidos, móveis,papéis, bibelots...

Às vezes basta mudar a cor de uma parede, dispor os móveis de maneira diferente, fazer outros arranjos com as plantas para termos uma sala nova.

Acredito que a Margarida vá aproveitar as férias deste ano para fazer grandes mudanças lá por casa. Estou a ver que ela anda novamente com a criatividade em alta. Hum... revistas, sítios de decoração, projectos desenhados aqui e ali... É esperar para ver...




quinta-feira, abril 30, 2009

Margarida e o planeta longínquo

A Margarida sabe de um caminho que leva a um planeta secreto e longínquo. Um caminho de luas e de estrelas e de areias douradas. Um caminho de mar.

Nas noites quentes de luar, naquelas noites em que o silêncio da praia lhe permite ouvir a voz do coração, Margarida põe-se à escuta. E é nesses momentos que as palavras lhe chegam e lhe contam dos sonhos, da vida, do nascimento, da dor, do amor. As palavras contam-lhe dos livros e dos textos, das cantigas e dos poemas e de toda a felicidade contida nesse planeta longínquo.

Margarida, como uma aluna aplicada, pega na caneta e no seu caderninho de capa preta e escreve. Toma nota de tudo quanto ouve , colocando vírgulas nas pausas menores e pontos finais nas pausas maiores. Coloca sobretudo muitos pontos de exclamação e, para terminar, um enorme e bojudo ponto de interrogação.

Porquê ? - pergunta-se - Porque hei-de ser eu a detentora do segredo?

Mas a voz do coração não lhe responde. Obriga-a a respirar fundo e a meditar. Obriga-a a respirar ainda mais fundo e a encontrar as respostas dentro de ela própria, naquele recanto onde só a sabedoria impera, naquele recanto onde não há lugar para dúvidas nem para medos.

Margarida inspira e expira e faz muitas perguntas a si mesma.

Ela nunca me contou totalmente o seu segredo. Nunca me disse onde fica o planeta longínquo. Talvez seja apenas o produto da sua imaginação tão fértil. Ou não. Mas deixo-a pensar que tudo é real e espero que um dia ela encontre as respostas.

- Acreditas em vidas passadas ?
- As perguntas que tu me fazes, Margarida!
- É que, às vezes, tenho a impressão...

Às vezes, eu é que tenho a impressão de que a Margarida não me conta todos os seus segredos. Mas como? Se ela é a menina dos meus olhos e eu só quero que ela seja feliz?


domingo, abril 26, 2009

Margarida e o domingo




Li no jornal que hoje é domingo. Se vem no jornal, deve ser mesmo domingo. Ainda que não me tenha apercebido. Os dias são iguais. Tenho resmas de dias fotocopiados. Tenho arquivos de rotinas, sempre com os mesmos ficheiros , os mesmos documentos, os mesmos títulos. Viver é estar sempre a dizer, a fazer, a esperar o mesmo.

Mas hoje é domingo! Vem no jornal ! E eu deveria saber. Deveria vestir o vestido azul para ir almoçar junto do mar. Deveria ir ao concerto e sorrir. Deveria passear pelo jardim botânico e tirar fotografias às rosas em botão.

Amontoa-se o lixo do almoço no balde da cozinha. Há que fechar o saco e levá-lo para baixo. Daqui a pouco o jantar e a roupa e o pó e o silêncio da casa. O silêncio da casa.A roupa e o pó. E as costas que dóiem. E o silêncio. E é domingo. Li o jornal que hoje é domingo.

- Sabias que é domingo?, perguntou a Margarida.
- Domingo?
- Sim. Vem na primeira página do jornal.


quinta-feira, abril 16, 2009



Margarida e a Lua


- Estamos na fase de Lua Cheia.- disse a Margarida - Se pudesse, ia até á praia. Vestia aquele casaco de lã branca e quente. Sabes, aquele que eu chamo de casaco de pescador ? Sim. Vestia esse casaco, umas calças de veludo e umas botas. Talvez as castanhas de cano alto, que dão tão bom andar. E ia até à praia. Deve estar bonito o mar a esta hora. Uma manta de brocado com uma fita de prata. Não. Talvez a lua se pareça com uma bola de cristal. Bela e transparente!...
Não! Não me venhas de novo pedir juízo! Já estou a ver a tua cara. Estou cansada dos teus ares. Deixa-me sonhar. Quero sentir essa brisa no rosto. Quero os cabelos ao vento. E quero sal e salpicos ! Quero correr sozinha à beira-mar, cair no areal e rebolar como uma onda rebelde. E já te disse que não ! Pára de me proteger ! Desta vez vais deixar-me sonhar!

A Lua Cheia
iluminou as nuvens esta noite.
E o céu fez-se
manta de brocado.

Roubada ao Sol.
A Luz.
Furto cintilante.




Deixo sim. Eu deixo-a sonhar. A Margarida tem a Lua em Aquário. Leu isso há dias numa carta astral que lhe fizeram.



sexta-feira, abril 10, 2009


Margarida e a Verdade




- Sabes - perguntou-me a Margarida - se as verdades, que sabem a meu respeito, são aquelas que nunca revelei?

A Margarida tem destas coisas. Uma pessoa tão simples. Sim, porque a Margarida é de facto uma pessoa muito simples. E , de quando em vez, faz-me destas. Prega-me partidas. Faz-me perguntas, que me obrigam a pensar. Faz-me perguntas para as quais não tenho resposta.

-
Não sei, minha querida. Que sei eu da Verdade e da Mentira?

-
Pois é. - disse ela - Há mentiras tão bem maquilhadas, que mais parecem verdades sofisticadas.
Eu gosto da Verdade simples. Quem for meu amigo ou amiga a sério, há-de saber toda a minha Verdade. Será a sua alma a ler dentro do meu coração.

Menina doce dos meus olhos...

domingo, abril 05, 2009





- Apetece-me um passeio pelo campo - disse a Margarida, arrumando a
casa - estou a precisar de ar puro e de Sol!... E de verde!... De muito
verde...


No domingo, levo-a a apanhar flores campestres para enfeitar a sala. A Margarida é a menina dos meus olhos. Sei como ela gosta de flores.










terça-feira, fevereiro 10, 2009




Margarida e a tarde em Paris



Margarida está cansada destes sítios.

Caminhos de vidro sempre tão quebradiços. Horizontes exíguos. Nuvens opacas. A cidade passada a papel químico, fotocopiada, reproduzida em resmas e resmas de papel reciclado. Eternamente a mesma. Uma cidade sempre vestida de cinzento. Sem rios e sem surpresas.

- Uma tarde em Paris...

- Em Paris, Margarida ? Uma tarde?

- Uma tarde, sim. Deambular pelos cais. Ficar sentada a olhar as péniches e os bateaux-mouche. Flanar pelo Quartier Latin, entrar na "librairie Gibère -Livres neufs et d'occasion- papetrie".

Cheirar os livros. Folheá-los. Escolhê-los como quem escolhe um amigo.Passar os dedos pelas capas suaves e brilhantes dos cadernos Claire-Fontaine.

-Sair sorrindo com dois sacos cheios e um marcador de leitura : les livres ont plusieurs vies.

- Eu sei, Margarida. E sentar na esplanada do café ali mesmo ao lado, pedir un petit-pain au chocolat e uma chávena de chocolate quente.

- E vê-lo enfim chegar. Uma tarde em Paris.

"Je t'ai apporté une rose, ma chérie".







sexta-feira, dezembro 12, 2008


Choveu o dia inteiro. A Margarida entrou pela loja a sorrir. Estranhei.Pela chuva que caía.A Margarida não sorri muito nestes dias.Costuma ficar colada à janela da salinha, olhando ao longe, ao longe, muito para além do parque, para além do rio.

-Quando chove, dizia-me ela há tempos com lágrimas nos olhos, é sinal de que os deuses estão a tentar lavar a Terra da maldade dos homens.Gostava que chovesse dentro de mim.

A Margarida é a minha menina querida. Nos dias de chuva, eu costumo chorar com ela. Quando chove, ambas tentamos lavar a maldade dos homens.

Hoje, a Margarida sorria ao entrar-me na loja. E no entanto chovia...

Esta noite, vou deixar uma rosa no seu chá de jasmim. E um raio de lua, talvez...

sábado, maio 03, 2008

Margarida e as Rosas
Memórias antigas
Tempos houve em que a Margarida foi dona de um jardim.
E nesse jardim floresciam rosas a cada Primavera.
Rosas brancas, rosas vermelhas, rosas amarelas e rosas cor-de-rosa.

Mas os Tempos mudaram,
como sempre tudo muda na vida da Margarida.
Foi-se o jardim.
Foram-se as rosas.
Hoje, a Margarida tem rosas imortais espalhadas pela casa.

Rosas na cama.
Rosas nas loiças.
Rosas nos tapetes.

Rosas brancas. Harmonia.
Rosas vermelhas. Paixão.

Rosas amarelas. Alegria.
Rosas rosas ! Coração!


(E ainda aquelas rosas em fundo negro , que lhe povoam a Alma. Mas eu desconfio que a Margarida também usa uns óculos de lentes cor-de-rosa, os quais lhe permitem ver a Vida com mais Luz. Serão os olhos da Poesia? Feliz Margarida, às vezes tão criança ainda!)



sexta-feira, maio 02, 2008



Margarida e a janela

Havia, naquela janela, qualquer coisa de misterioso e místico. Margarida, só há mil vidas, procurava adivinhar a sombra, que passearia do lado de lá da cortina, os títulos dos livros repousando nas velhas estantes de madeira, umas mãos quentes prometedoras de carícias, talvez a película de um antigo filme ou quiçá a voz quente do Bécaud...

Havia, naquela casa, um enorme ponto de interrogação.

Margarida, detentora da chave dos Sonhos diluídos, portadora das palavras e das marés nocturnas, senhora dos números e das alquimias, escutava a voz do vento bailador por entre as flores.

______________________E sorria!

sábado, março 08, 2008





Vento quente do Sul....

Onde está a voz que chega com o vento quente do Sul, trazendo no eco a vaga tranquila do rio, o rumor do mar batendo na rocha e nos olhos a cor da planície onde cavalos alados voam correndo?
Olho em meu redor e tudo me fala do nome, do olhar, do corpo que não conheço e amo, como se ama Deus e o Sol e o Ar e todas as outras coisas intocáveis que, sem as vermos, nos fazem viver e sentir.
Quando virão as mãos tocar-me na pele, no rosto, nos cabelos, na alma, como já as palavras me tocam na pele, no rosto, nos cabelos , na alma?
Os dias passam e o tempo e os pássaros voam e cantam debicando o fruto das cerejeiras. Doce é o sabor do tempo das cerejas.Os dias passam e eu passo contando o tempo que quisera breve,como os versos ligeiros deste meu canto.
Quão triste é o tempo da espera e nostálgico o momento das marés nocturnas, ternos idílios trazidos pela mão de invisíveis marinheiros de outras viagens.
Onde está a ponte que conduz à outra margem do rio?
Procuro na estrada um caminho mais fácil e apenas vejo as escarpas e os montes e esse ponto distante, que meus olhos não alcançam, perde-se na memória viva do dia.
Alguém deterá o segredo dos mapas e das clépsidras e me apontará o caminho da Luz através desse TEMPO feito àgua e ilha e brisa e espuma.
Alguém virá tocar à minha porta e trará no sorriso as quatro estações, a árvore dourada , o tronco despido, as flores e os frutos.
Chega-me a voz com o vento quente do Sul trazendo no eco o Sonho, a promessa ; penetrante voz que irriga meu sangue e que vive em mim e que respira em mim e me ama e me chama .
Quando virá o dia em que a ponte surgirá a meus pés , tapete rolante para a outra margem?

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Margarida e a visita

A Margarida estava insegura e angustiada, naquela tarde. Nada parecia poder acalmá-la, nem sequer o chá de menta, que eu lhe preparara com carinho.

- Toma este cházinho, Margarida. Vai fazer-te bem.Tenta relaxar.

Mas ela não me ouvia. Dava ideia de que um poderoso vendaval se apoderara da sua mente, que um vulcão estava prestes a entrar em erupção dentro do seu corpo. O sangue pulsava-lhe nas artérias, de tal modo que eu conseguia ver cada estremecimento daquele peito agitado, adivinhar cada batida do seu coração.

-Há-de chegar! Há-de chegar!, murmurava a Margarida.

- Sim, Margarida...sei que esperas alguém... não queres dizer-me de quem se trata?

-Há-de chegar! Há-de chegar!

A sala estava envolta numa doce penumbra e a cortina filtrava um breve e fugidio raio de sol.
Duas cadeiras. Entre elas, uma mesa. Sobre a mesa, um ramo de rosas . E ainda uma taça de frutos vermelhos, uma garrafa de Porto. A Margarida esperava uma visita. Tinha tirado do louceiro os melhores copos de cristal, da arca do enxoval a mais bela toalha bordada e, por toda a casa, pairava um aroma exótico de incenso, laranja e canela.

Pasmei perante esta contradição entre o sentir da Margarida e a serenidade do espaço, que ela habitava. A Margarida esperava uma visita. Mas quem? Quem poderia perturbar assim a minha amiga, a menina dos meus olhos?

- Deixa-me só! Vai!

Voltei na manhã seguinte.Tudo estava na mesma. Os frutos vermelhos. A garrafa de Porto. A toalha bordada. Os copos de cristal. Apenas a luz era agora mais forte. O aroma menos intenso.

A um canto, dobrada sobre si mesma, Margarida chorava silenciosamente.

-Podia ter sido ontem, gemeu. Podia ter sido ontem...


segunda-feira, fevereiro 11, 2008


Margarida e os reflexos

Muitos momentos na vida da Margarida não passam de reflexos. Imagens repetidas, fragmentadas, recoladas. Palavras ditas e reditas, decoradas, esquecidas.

Há um aroma a cappucino, que me ficou de uma tarde à beira Tejo. Reflexos de água. Reflexos de uma mesa de zinco... Ecos. Palavras soltas.