quarta-feira, outubro 10, 2007
sexta-feira, março 23, 2007

Margarida e o desespero
Ela disse-lhe sou louca. Como quem diz tenho vinte anos, ando no liceu e gosto de cerejas.Sou louca com a ingenuidade das palavras meigas.
Ele fingiu não ouvir. Passavam um filme de Renoir na televisão por cabo e ele nunca ouvia o que ela lhe dizia.Ou se ouvia fingia que não ouvia.
Ela não desgostava deste diálogo de surdos. Permitia dizer-lhe o que lhe apetecesse como vou deixar-te quando menos esperares.Como se lhedisesse amnhã é domingo e vou fazer frango guizado com puré de batata para o almoço.
Ele engoliu o fumo que tragava teimando numa indiferença travestida de doces atenções e ia dizendo sim sim querida sim sim querida como se a ideia de ela o deixar nunca lhe tivesse passado pela cabeça ou por acreditar que tinha ouvido mal.
Ela disse-lhe sou louca e sou bem capaz de largar tudo isto e de ir rever o rio da outra margem, o mar do outro lado do oceano.
Ele não sabia da outra margem do rio nem da cor do oceano onde ela se perdia sequer dos movimentos das asas gaivotas que ela desenhava no ar quando sonhava.
Ele pensava que ela só podia caminhar nos sonhos em que ele flanava comodamente sentado no seu sofá amarelo.
Ela pegou na mala e nos livros que não lera e nas palavras que escrevera toda a vida e nas memórias de tudo o que ainda tinha por viver e nos poemas que haveriam de lhe ler.
Apenas porque estava cansada.
Ele ficou desesperado. Ao partir, ela levara-lhe o comando da televisão!
terça-feira, março 20, 2007

Margarida e a Rosa Vermelha
Ela não gostava de rosas. Ele não sabia. Ela nunca lhe dissera que não gostava de rosas. Ele nunca lhe confessara que farejava miragens de mulheres perfeitas no negro do asfalto. Ela detestava esse tipo de homem-cão. Mas nunca lho dissera.
Ele enviou-lhe um botão de rosa pelo correio. Express mail. Para chegar mais depressa.
No dia em que recebeu a encomenda, Margarida decidiu ir ao cinema.Vestiu uma gabardine negra, pôs a rosa na lapela e pintou os lábios de encarnado.Foi numa tarde de chuva e o brilho do asfalto alongava-lhe a silhueta alta e esguia.
Ao sair, Margarida deixou a rosa a florescer na lixeira. E ele ficou a lamber o chão que Margarida pisara.
sábado, dezembro 02, 2006
sábado, novembro 18, 2006
terça-feira, novembro 14, 2006
A Margarida desenha círculos de fogo sobre o papel incandescente. Esconde uma harpa na bainha do texto e compõe poemas anónimos nas madrugadas cinzentas. A Margarida não tem voz, nem ouvidos, que escutem a sua mudez.
Gostava que a Margarida vestisse o seu vestido negro e fosse dançar o tango nas ruelas de Paris.
A Margarida tem versos por dizer. Sílabas tónicas numa voz de tenor.A Margarida é actriz sem papel principal.Possui talentos escondidos na escuridão dos bastidores.
Desejava para a Margarida as luzes da ribalta, um céu cheio de estrelas, onde pudesse cantar.
A Margarida cansou-se de esperar. Desligou -se do tempo e de todos os relógios . A Margarida mede agora as horas pelas batidas do coração.
Sonhava para a Margarida o alto de uma torre, donde ela pudesse medir os dias pelo Sol e as noites pela Paixão.
quarta-feira, novembro 08, 2006


segunda-feira, novembro 06, 2006

Margarida e as essências

A Margarida abriu o armário do corredor e dele extraíu a caixinha das essências.
Alinhou os frasquinhos em cima da mesa. Pequeníssimos anjos dos aromas, prontos para perfumar o Mundo, mal a Margarida lhes abrisse as tampas e os deixasse voar.
Laranja,lavanda,canela,jasmim,rosa,baunilha,maçã,alecrim.
Todos eles estavam prontos para sair por aí espalhando aromas, como quem distribui confettis coloridos em dias de festa.____
Os dias chuvosos e cinzentos precisavam de cores e de cheiros.__
Aquelas nuvens, lá em cima, uma vez coloridas e perfumadas de rosa, ficariam por certo como o algodão doce.
A Margarida desenroscou , muito lentamente, cada tampa de cada frasquinho de essência e , sempre muito lentamente, deixou que os anjinhos dos cheiros se libertassem, acordassem , esticassem as asinhas e começassem a voar, felizes na sua missão de aromatizar o Mundo.
E foi assim que , nesse dia, o Outono, ficou com cheiro a Primavera.
terça-feira, outubro 31, 2006

Margarida e o segredo
Como melhor amiga, best friend, mesmo the very best, não posso revelar aqui o segredo da Margarida. Não! Não insistam! Ela nunca mais iria confiar em mim.
Sei que ela tem um segredo , escondido dentro do seu coraçãozinho.Um segredo com sabor a coisas doces e com cheiro a rosa e a lavanda.
Já vos disse que não. _______________Silêncio.____________Boca fechada e maxilares cerrados. E adesivo! Muito adesivo nos lábios.
O segredo da Margarida é só meu e dela. Principalmente dela, claro está.
A Margarida gosta de segredos.______Guarda-os em caixinhas, que nunca mostra a ninguém. Caixinhas com rótulos. A Margarida adora forrar caixas e colocar daquelas etiquetas bonitas, um pouco british, cheias de florinhas e de bichinhos. ____Parece criança.
De facto, a Margarida é uma menina. É a menina dos meus olhos._____ Tenho de olhar por ela e de a proteger. Principalmente dela própria, mais das vezes. Não quero que ela se magoe mais.
É por isso que sou a guardiã das palavras da Margarida. Ela é mesmo uma Margarida branca e ingénua num imenso prado verde.E se o vento a ataca? Se um sol a queima?________
A Margarida tem um segredo. Essa palavra...
- Diz-me uma coisa...
- Sim, Margarida...
- Achas que o silêncio tem cor?
sábado, outubro 21, 2006
terça-feira, outubro 17, 2006

A Margarida e o puzzle
Há dias em que a Margarida tem a sensação de ser um puzzle.
Não sei porque hão-de fazer essa cara de espanto. ___ Disse bem : um puzzle! Um desses jogos constituídos por pecinhas pequenas, que se ajustam até formarem um todo. Há-os para gente crescida e para meninos de todas as idades.___ A Margarida sente-se um puzzle de difícil construção. Tem algumas peças a mais e outras peças a menos.É bem capaz de ter um parafuso a menos, mas isso não conta aqui para nada. Os parafusos só serão necessários no momentode montar a moldura.
Eu até acho a Margarida bastante normalinha, mas ela insiste em dizer-me , que tem uma sensação profunda , quase dolorosamente física de ser um puzzle. Como se fosse assim uma coisa cheia de complicações, que muita gente tenta decifrar e acaba por desistir, começando por ela própria. As sua palavras, por exemplo, os seus sonhos, as suas vidas secretas e os seus mundos ocultos____ tudo puzzles. Pedacinhos. Pecinhas.
Quando a Margarida se põe a pensar, transforma-se num verdadeiro quebra-cabeças.
- Então , Margarida? Que estás aí a fazer com a tesoura e a cola?
-Estou a tentar centrar-me.
segunda-feira, outubro 16, 2006

Who cares ?,respondeu a Margarida.
A Margarida passou a semana a ler. Se repararem bem, tem os olhos avermelhados, não apenas das letrinhas pequenas dos livros , mas também do brilho e da luminosidade do écran do seu portátil.
-E por que razão andou a rapariguita a ler tanto, ao ponto de estragar a vista?
Apeteceu-lhe. ___ Tem destas manias, a miúda.Passou a semana a ler e a escrever.Misteriosamente mergulhada em pilhas de papel, livros e sempre frente ao computador, leu, escreveu, imprimiu, tomou notas, apagou, releu, reescreveu e depois leu, leu, leu.______
Desconfio que a Margarida anda com alguma escondida na manga.Quando põe uma ideia na cabeça, ninguém a segura.
-Margarida, estão todos tua espera.Vê lá mas é se tiras essa tralha toda de cima da mesa da casa de jantar. O pessoal quer jantar.
- Who cares?
quarta-feira, outubro 11, 2006

Margarida e a Tristeza
terça-feira, outubro 10, 2006

Estava escrito
Digo que não deve ter sido mera obra do acaso , visto que a Margarida sempre gostou de animais e de livros. Penso que esse gosto , já lhe vinha possivelmente de outras vidas, de outros espaços, de outros tempos; duma altura em que nem a Margarida nem os seus pais se lembravam.
Eu acredito que qualquer coisa se passou na cabecita daquela Margaridinha bébé, ainda muito muito pequenina, quase minúscula de tão pequenina. Algo inexplicável e maravilhoso que a levou à escolha desse particular local de nascimento.
A Margarida já amava as palavras muito antes de nascer; já sabia que o Senhor Carlos veterinário tinha na sua biblioteca montes de livros imensos, com muitas muitas folhas, cheios de letrinhas pequeninas e desenhos de animais de toda a espécie. A Margarida já sabia , que iria redescobrir o gosto e o cheiro dos livros na casa do Senhor Carlos. E como para poder ler as palavras, precisaria de aprender as letras, nada melhor do que ter ali mesmo à mão, a dois passos da sua casinha, a casa da Senhora professora e da sua paciente mãe, a Dona Hermínia. A Margarida escolheu nascer no sítio certo .
- Então? Soube que já te nasceu a menina. Não era lá para Janeiro?
- Era, disse o pai da Margarida, mas adiantou-se. Veio quase um mês mais cedo. Estava com pressa de nascer.
A Margarida tinha pressa de saber, de aprender o mundo, de folhear os livros, de decifrar as letras. A Margarida escolheu nascer muito pertinho das palavras.







